Nomenclatura Brasileira para laudos de Citopatologia Cervical Uterina 


 

Rio de Janeiro, 23 de Novembro de 2001.

Em 1993, a Sociedade Brasileira de Citopatologia, com o apoio e patrocínio do Ministério da Saúde, por intermédio do Instituto Nacional do Câncer, elaborou e posteriormente oficializou a 1ª Nomenclatura Brasileira para laudos de Citopatologia Cervical Uterina. Esta padronização foi aplicada no Brasil, tendo sua disseminação e aceitação consagrada no Programa "VIVA MULHER", a partir de 1995.

Em 2001, transcorridos 8 (oito) anos durante os quais surgiram novas tecnologias e novos conhecimentos morfológicos e moleculares, inclusive com a revisão do Sistema de Bethesda da qual a SBC e MS participaram ativamente, uma vez mais sob os auspícios do mesmo Instituto Nacional do Câncer e do Ministério da Saúde, a Sociedade Brasileira de Citopatologia reuniu seus profissionais e procedeu à revisão da Nomenclatura, com a contribuição e participação de Médicos Patologistas e Citopatologistas desse Instituto e da Sociedade Brasileira de Patologia.

A dinâmica obedecida foi a seguinte: definidos os temas que seriam analisados, a Diretoria da SBC indicou os Coordenadores e Relatores os
quais, utilizando-se da tecnologia da INTERNET, em programa desenvolvido pela empresa PETRODIS, responsável pela execução do CITOMEDIA, debateram seus respectivos temas e acolheram opiniões e sugestões dos demais Diretores, Presidentes de Capítulos e sócios.

Foram estes os grupos de trabalho:

Adequabilidade da amostra

Coordenador: Luiz Martins Collaço
Relator: Ilsa Prudente
Relator: Carlos Alberto Temes de Quadros

Alterações celulares benignas e agentes etiológicos

Coordenador: Fátima Edilza Xavier de Andrade
Relator: Maria Conceição Aguiar Lyra
Relator: Estefania Mota Araripe Pereira

Atipias de células escamosas de significado indeterminado

Coordenador: Antonio Luiz Almada Horta
Relator: Élbio Cândido de Paula
Relator: Maria Raymunda de A. Maranhão

Neoplasias intraepiteliais cervicais

Coordenador: Elias Fernando Miziara
Relator: Sérgio Tavolaro Pereira
Relator: Lucilia Zardo

Atipias de células glandulares de significado indeterminado e lesões glandulares

Coordenador: Carlos Alberto Ribeiro
Relator: Álvaro Piazzetta Pinto
Relator: Ilzia Doraci Scapulatempo

Finalmente, nos dias 22 e 23 de Novembro de 2001, reunidos os Diretores da SBC e os representantes dos diversos Capítulos (Estados), técnicos do INCA e representante da SBP, na cidade do Rio de Janeiro, foram expostas as sugestões e debates. Após apresentação, relacionadas as propostas, foram escolhidas por votação pela plenária, ficando então com a seguinte estruturação final.

TIPO DA AMOSTRA

Citologia convencional
Citologia em meio líquido

Nota explicativa: Por existirem os dois meios, ambos validados, porém com diferentes exigências de adequabilidade e responsabilidade pelas amostras, definiu-se pela exigência de definição, no corpo do laudo, do método utilizado.

AVALIAÇÃO PRÉ-ANALÍTICA

Material rejeitado:
Por ausência ou erro de identificação da lâmina
Identificação da lâmina não coincidente com a do formulário
Lâmina danificada ou ausente
Outras causas: (especificar nas observações gerais)

Nota explicativa: os eventos relacionados neste tópico são decorrentes de causas alheias ao laboratório, donde serem identificados como pré-analíticos, devendo, portanto, ser a amostra rejeitada administrativamente, evitando-se registro, emissão de laudo médico e cobrança indevida.

ADEQUABILIDADE DA AMOSTRA

Satisfatória
Satisfatória para avaliação mas limitada por:

Ausência de informações clínicas pertinentes

Ausência de células metaplásicas e/ou glandulares cervicais
(esfregaço obscurecido 50 a 75 %) por:

Artefatos de dessecamento

Superposição celular

Exsudato leucocitário

Hemácias

Outras causas (especificar nas observações gerais)

Insatisfatório (esfregaço obscurecido acima de 75 %) por:

Artefatos de dessecamento

Superposição celular

Exsudato leucocitário

Hemácias

Outras causas (especificar nas observações gerais)

Nota explicativa: optou-se pela manutenção da categoria "Satisfatório mas limitado por" em vista da possibilidade de proceder-se a diagnósticos úteis para a prática clínica, além de considerar-se as peculiaridades do Brasil, com as distâncias e dificuldades de acesso da população aos centros médicos, alertando-se ainda que o exame deverá ser repetido em intervalo de tempo compatível com o objetivo de prevenção do Câncer cervical. Os critérios anteriores e recomendações permaneceram os mesmos.

DIAGNÓSTICO DESCRITIVO

Dentro dos limites da normalidade no material examinado

Nota explicativa: considerando-se o aspecto genérico do termo normalidade e sua abrangência, a qual pode ser subjetiva para o clínico e para a paciente, foi incluída a expressão "no material examinado", visando limitar este conceito ao momento e material da colheita.

Alterações celulares benignas
Inflamação
Reparação
Metaplasia escamosa imatura
Atrofia com inflamação
Radiação
Outras (especificar)

Nota explicativa: As mudanças neste tópico foram a retirada das expressões "reativas e/ou reparativas e o acréscimo de "imatura" à metaplasia escamosa, por considerar-se que esta é a alteração que importa, como terreno propício às agressões que desencadeiam o processo neoplásico.

MICROBIOLOGIA

Lactobacillus sp
Cocos
Bacilos
Sugestivo de Gardnerella vaginalis
Candida sp
Trichomonas vaginalis
Sugestivo de Chlamydia sp
Actinomyces sp
Efeito citopático compatível com vírus do grupo Herpes
Outros

Nota explicativa: os dois pontos que suscitaram discordâncias e debates
foram: 1- a manutenção da Gardnerella vaginalis como referência ao grupo de bactérias englobados sob esse nome, motivado pela opção de se utilizar o conceito do achado morfológico e não do termo clínico de "vaginose bacteriana"; 2- a manutenção do diagnóstico sugestivo de Chlamydia considerando-se a dificuldade ou impossibilidade de se proceder a outros métodos laboratoriais mais indicados, naquelas regiões desprovidas de recursos. Onde for acessível, é recomendada a confirmação por técnicas apropriadas.

Alterações em células epiteliais

Células epiteliais atípicas (significado indeterminado)
Escamosas
Glandulares
Sem outras especificações
Possivelmente não neoplásica
Possivelmente neoplásica

Nota explicativa: o conjunto de atipias conhecidas como de significado indeterminado foi colocada em um mesmo grupo, em face das ocasionais dificuldades em separar as células alteradas e buscando melhor conceituar um grupo de alterações que, sabidamente, representam dificuldades de interpretação e manejo clínico-terapêutico. A substituição da palavra "reacional" por "não neoplásica" visa dar maior enfoque às alterações relacionadas aos processos neoplásicos, evitando-se ênfase em alterações de células diferenciadas, geralmente relacionadas a processos reativos.

Em células escamosas

Lesão intra-epitelial de baixo grau (compreendendo efeito citopático do HPV e Neoplasia intra-epitelial cervical grau I)
Lesão intra-epitelial de alto grau - Neoplasia intra-epitelial cervical grau II
Lesão intra-epitelial de alto grau - Neoplasia intra-epitelial cervical grau III
Lesão intra-epitelial de alto grau - Não podendo excluir invasão
Carcinoma epidermóide invasor

Nota explicativa: optou-se por adotar o termo "lesão" e englobar NIC-I e HPV por considerar-se que tais modificações foram bem aceitas pela comunidade médica nacional e internacional; já em relação à divisão em NICs II e III no mesmo espectro do alto grau deve-se ao fato de que em pacientes mais jovens, a identificação de uma fase mais precoce pode indicar tratamento expectante ou mais conservador; a expressão "não podendo excluir invasão" foi acrescentada pelo reconhecimento da possibilidade de identificação de alterações celulares indicativas de um processo mais avançado. Por fim, foi recomendada a não utilização, "a priori", da classificação da Organização Mundial da Saúde, com o objetivo de diminuir o número de nomenclaturas e termos usados, buscando minimizar possíveis dificuldades no manejo clínico.

Em células glandulares

Adenocarcinoma "in situ"
Adenocarcinoma invasor
Cervical
Endometrial
Sem outras especificações

Nota explicativa: reconhece-se que há padrões citomorfológicos que podem diagnosticar o Adenocarcinoma "in situ", razão da inclusão do termo, assim como a dificuldade que por vezes encontra-se na definição de origem da neoplasia invasora.

Outras neoplasias malignas (especificar)
Presença de células endometriais (na pós-menopausa ou acima de 40 anos)

Nota explicativa: as células endometriais somente deverão ser assinaladas quando fora do período menstrual, em pacientes na menopausa e/ou acima de 40 anos, em vista do baixo significado de sua presença e descrição em outras situações.

Esta apresentação será agora disponibilizada pelos meios de comunicação disponíveis (Boletim da SBC e sítio eletrônico das Sociedades) para conhecimento e contribuições finais, as quais serão debatidas em novo evento, agendado para o segundo trimestre de 2002, com a participação de representantes das Sociedades clínico-cirúrgicas interessadas (FEBRASGO e SBPTIGC), após o que, disponibilizando-se uma vez mais até Setembro, poderá ser definitivamente aprovada durante o CONGRESSO BRASILEIRO DE CITOPATOLOGIA, a ser realizado de 4 a 8 de Setembro de 2002, na cidade de Foz do Iguaçu - Paraná, na presença ainda de representantes de paises do MERCOSUL e da Sociedade Latino-americana de Citologia.

Participaram e contribuíram com esta proposta:

  1.. Álvaro Piazzetta Pinto
  2.. Antonio Luiz Almada Horta
  3.. Carlos Alberto Fernandes Ramos
  4.. Carlos Alberto Ribeiro
  5.. Carlos Alberto Temes de Quadros
  6.. Celso di Loreto
  7.. Denise Barbosa
  8.. Élbio Candido de Paula
  9.. Elias Fernando Miziara
  10.. Elza Baia de Brito
  11.. Estefania Mota Araripe Pereira
  12.. Fátima Edilza Xavier de Andrade
  13.. Francisco José Batista da Silva
  14.. Gleyce Juventelies de Oliveira Anunciação
  15.. Henrique de Oliveira Costa
  16.. Ilzia Doraci Lins Scapulatempo
  17.. Ivana Porto Ribeiro
  18.. João Batista da Silva
  19.. Jorge Henrique Gomes de Mattos
  20.. Laudeyceia de S. Oliveira
  21.. Lucilia Zardo
  22.. Luiz Carlos de Lima Ferreira
  23.. Luiz Fernando Bleggi Torres
  24.. Luiz Martins Collaço
  25.. Maria da Conceição Aguiar Lyra
  26.. Maria José de Souza Ferrera
  27.. Maria Raymunda de Albuquerque Maranhão
  28.. Marilene Filgueira Nascimento
  29.. Marina Lang Dias Rego
  30.. Maura Raquel Ferreira Sousa Vidal
  31.. Midori Piragibe
  32.. Nilza Maria Sobral Rebelo Horta
  33.. Olimpio F. de Almeida Neto
  34.. Paulo Sérgio Peres Fonseca
  35.. Roberto Junqueira de Alvarenga
  36.. Sérgio Tavolaro Pereira
  37.. Sheila Rochlin
  38.. Sueli Aparecida Maeda
  39.. Valeria de Andrade
  40.. Valeria Hora de Melo
  41.. Virgilio Augusto G. Parreira
  42.. Virginia Borges Nassralla
  43.. Wilna Krepke Leiros Dias

Este trabalho somente foi possível graças ao apoio do Doutor Jacob Kligerman, Diretor do Instituto Nacional do Câncer e de sua equipe da Comprev Dr. Ivano Marchesi , Dr.Luiz Cláudio Thuler, Tereza Maria P.Feitosa, Cleide Regina Carvalho e Dr. Willermo Torres do HCI / Inca